Empresas de mineração vendem mais de 32 000 BTC, atingindo máximo histórico: setor entra numa fase de divergência estrutural

Mercados
Atualizado: 2026-04-17 09:53

A indústria da mineração de criptomoedas está a atravessar uma profunda transformação interna. No primeiro trimestre de 2026, os dados das empresas de mineração cotadas em bolsa revelam que as suas vendas de Bitcoin atingiram níveis sem precedentes. Esta tendência não constitui apenas um sinal de mercado em baixa — demonstra como, sob pressão contínua sobre o preço do hash, os mineradores estão a seguir caminhos radicalmente distintos, em função das suas estruturas de custos e disciplina de capital. O setor está a afastar-se do antigo modelo de concorrência homogénea baseada exclusivamente no poder de hash, evoluindo para uma competição sofisticada centrada no controlo dos custos energéticos, na resiliência do balanço e na eficiência operacional.

Alienação Recorde de Reservas

O acompanhamento contínuo dos dados operacionais dos mineradores públicos mostra que, no primeiro trimestre de 2026, grandes empresas cotadas — incluindo MARA, CleanSpark, Riot, Cango, Core Scientific e Bitdeer — venderam, em conjunto, mais de 32 000 BTC. Apesar de algumas destas empresas ainda não terem divulgado os relatórios trimestrais completos, o volume de vendas já confirmado ultrapassa o montante líquido vendido ao longo dos quatro trimestres de 2025, estabelecendo um novo recorde setorial. Este valor supera o anterior máximo, de cerca de 20 000 BTC vendidos por mineradores públicos durante a turbulência de mercado desencadeada pelo colapso da Terra-Luna no segundo trimestre de 2022.

A 17 de abril de 2026, os dados de mercado da Gate indicam que o preço mais recente do Bitcoin se situa nos 75 726 $, com uma valorização de 1,38 % nas últimas 24 horas. Apesar deste preço permanecer acima do máximo histórico do ciclo anterior, a vaga de vendas por parte dos mineradores contrasta fortemente com a acumulação agressiva registada há apenas um ano. No final de 2024, este grupo registou um aumento líquido de 17 593 BTC, elevando as reservas totais acima dos 100 000 BTC. A inversão atual assinala uma viragem rápida no ciclo de capital da mineração.

Do Crescimento Exuberante à Pressão pela Sobrevivência

Para compreender esta alienação recorde, importa recuar e analisar a evolução estrutural do setor da mineração desde 2021.

2021–2022: Migração do Hashrate e Crescimento Desenfreado

Após a proibição da mineração na China, o mapa global do hashrate foi redesenhado. Os mineradores públicos norte-americanos beneficiaram de um período de expansão simultânea de capital e poder de hash, com a escala a tornar-se o principal argumento de valorização de mercado.

2023–2024: Corrida às Reservas Pré-Halving

Antecipando o quarto halving das recompensas de bloco, os mineradores alteraram a estratégia e começaram a acumular Bitcoin como forma de proteção face à redução futura das receitas. O volume de BTC em balanço tornou-se um indicador crucial da saúde financeira das empresas.

Pós-halving de 2024: Intensificação da Compressão das Margens

Na prática, embora o preço do Bitcoin tenha ultrapassado o máximo de 2021, a dificuldade de mineração da rede é atualmente quase dez vezes superior à registada em 2021, e as recompensas de bloco voltaram a ser reduzidas para metade em 2024. O principal indicador de rentabilidade — o preço do hash (receita esperada por unidade de hashrate) — manteve-se em mínimos históricos, em torno dos 30 $/PH/s.

A persistência de preços baixos do hash empurrou equipamentos de mineração mais antigos e menos eficientes — sobretudo os com eficiência inferior a 30 J/TH e elevados custos energéticos — para situações de não rentabilidade.

Dados e Estrutura: O Fosso de Custos e Capital por Detrás da Divergência

Esta venda recorde não reflete um movimento uniforme do setor; os dados evidenciam uma divergência estratégica significativa entre os participantes.

Vendedores vs. Acumuladores

Por um lado, alguns grandes mineradores estão a vender Bitcoin para angariar liquidez — a forma mais direta de cumprir obrigações de dívida e cobrir despesas operacionais. Com condições de financiamento mais restritivas e dispendiosas, a venda de reservas de BTC tornou-se, na prática, um método de financiamento.

Por outro lado, empresas como a American Bitcoin (ABTC), uma entidade independente ligada à Hut 8, estão a adotar a estratégia oposta, com uma abordagem de "acumulação em dupla via". No início de abril, as reservas de Bitcoin da ABTC passaram de zero há um ano para mais de 7 000 BTC, e o seu hashrate próprio atingiu 28 EH/s. Os responsáveis da empresa afirmaram não ter intenção de vender nesta fase; o objetivo principal é acumular.

Esta divergência não resulta de previsões distintas para o preço do Bitcoin, mas sim de diferenças estruturais fundamentais ao nível dos custos.

  • Vantagem de Baixo Custo: Os dados do setor mostram que o custo total de produção em numerário por Bitcoin da ABTC rondava os 55 000 $ no quarto trimestre de 2025, com um custo de hash de cerca de 25 $/PH/s — um dos mais baixos entre os mineradores cotados. Isto confere aos BTC recém-minerados um desconto significativo face ao preço de mercado atual.
  • Reserva de Capital: A ABTC angariou 240 milhões $ através de uma oferta de mercado em 2025 e refinanciou mais 110 milhões $ no primeiro trimestre de 2026. Esta almofada de liquidez permite-lhes operar sem depender da venda de BTC.
  • Vantagem Energética Atípica: O caso da produtora canadiana de petróleo New West Data é ainda mais ilustrativo. Ao utilizar gás residual proveniente dos campos petrolíferos para gerar eletricidade própria para mineração, o custo energético efetivo desce para menos de 0,02 $/kWh — cerca de um terço da média dos grandes mineradores públicos. Com esta estrutura de custos, até equipamentos mais antigos, a operar a 60 J/TH, permanecem rentáveis aos preços de hash atuais, permitindo uma expansão contra-cíclica com investimento inicial reduzido.

Narrativas de Mercado: Da "Capitulação dos Mineradores" à "Limpeza Estrutural"

O mercado tem interpretado a venda de BTC pelos mineradores sob diferentes perspetivas analíticas.

Sinal de Capitulação dos Mineradores

Alguns participantes de mercado veem as vendas em larga escala como um clássico sinal de "capitulação dos mineradores", que marca o fundo de um mercado em baixa, sugerindo que o mercado está a entrar na sua fase final descendente. Esta visão considera a saída dos mineradores mais frágeis como um passo necessário para a retoma.

Limpeza Estrutural na Indústria

Uma análise mais aprofundada defende que a atual vaga de vendas reflete a eliminação passiva de capacidade ineficiente. Desde 2021, o excesso de capitalização no setor levou a uma bolha de hashrate; o atual ambiente de margens reduzidas está a expulsar operadores sem acesso a energia barata ou equipamentos eficientes. Trata-se menos de capitulação e mais de maturação e otimização do setor para a eficiência.

Confirmação da Mudança de Narrativa

Alguns observadores assinalam que este evento confirma uma mudança fundamental de narrativa na mineração — da lógica "escala do hashrate equivale a valorização" para uma abordagem centrada na "economia unitária e eficiência de capital". Os investidores já não remuneram apenas o volume bruto de hashrate; agora, analisam atentamente o custo total de produção por kWh e por Bitcoin.

Impacto no Setor: Redefinição do Hashrate e do Panorama de Capital

Esta vaga de vendas e divergência estratégica entre mineradores terá efeitos de largo alcance no setor.

Crescimento Mais Lento do Hashrate e Ajuste de Dificuldade

A curto prazo, o encerramento de operações de elevado custo e o fim das vendas poderão abrandar — ou até reduzir temporariamente — o crescimento do hashrate da rede. Isto desencadeará um ajuste descendente da dificuldade da rede Bitcoin, melhorando passivamente a rentabilidade dos mineradores em atividade — um mecanismo de autorregulação de mercado.

Nova Lógica de Atribuição de Capital

No futuro, o capital tenderá a fluir para mineradores com claras vantagens de custo e rigor na disciplina de capital. Soluções de software como o Commander da Luxor, que otimizam a programação automatizada do hashrate, estão a ganhar tração. O consenso do setor está a mudar de "comprar mais máquinas" para "tornar as máquinas existentes mais eficientes". Por exemplo, o firmware LuxorOS já suporta cerca de 45 EH/s — aproximadamente 5 % da rede global —, melhorando a economia unitária ao reduzir paragens e aumentar a eficiência operacional.

Uma Janela para Fusões e Aquisições

Mineradores com liquidez e custos reduzidos terão mais oportunidades para adquirir ativos em dificuldades. Este ciclo descendente pode acelerar a consolidação do setor, com mais operações semelhantes à aquisição de equipamentos ASIC pela ABTC, utilizando BTC como garantia em vez de numerário. Estas estruturas são difíceis de concretizar em mercados em alta, mas agora oferecem uma proteção relevante para os compradores.

Três Cenários Possíveis para o Futuro da Mineração

Face às realidades e tensões estruturais atuais, delineiam-se três cenários principais para a evolução do setor.

Cenário 1: Base — Limpeza Contínua da Capacidade Ineficiente

O preço do hash oscila entre 25 e 35 $/PH/s. Equipamentos antigos em regiões com custos energéticos elevados continuam a ser desligados, com o hashrate da rede a estabilizar ou a registar ligeira contração. As contas dos mineradores públicos permanecem polarizadas: empresas de custos elevados continuam a vender reservas de BTC para sobreviver, enquanto líderes de baixo custo acumulam ou mantêm reservas. Neste cenário, a concentração do setor desloca-se para os principais fornecedores de baixo custo.

Cenário 2: Otimista — Recuperação do Preço do Hash e Ganhos de Eficiência

Se o preço do Bitcoin estabilizar e mineradores de nova geração, mais eficientes, forem implementados em larga escala, o preço do hash poderá recuperar acima dos 40 $/PH/s. Isto aliviará a pressão de venda no setor e poderá desencadear um novo ciclo de expansão, mas mais cauteloso. Empresas que reestruturarem dívida e renovarem os seus equipamentos durante o ciclo descendente serão as primeiras a beneficiar.

Cenário 3: Pessimista — Queda Contínua do Preço do Hash

Se o preço do Bitcoin enfraquecer ainda mais e o preço do hash cair abaixo dos 25 $/PH/s, poderá desencadear uma vaga mais ampla de encerramento de operações — afetando até algumas com controlo de custos sólido. Nessa altura, a venda por parte dos mineradores passaria de "gestão de liquidez" para "desalavancagem em pânico", arriscando uma reestruturação ainda mais profunda do setor.

Conclusão

A alienação recorde de BTC por mineradores públicos no primeiro trimestre de 2026 constitui um verdadeiro teste de stress coletivo para o setor, pressionado simultaneamente pela restrição da liquidez macroeconómica e pela compressão interna das margens. Traça-se assim uma linha clara: de um lado, mineradores forçados a vender ativos apenas para sobreviver; do outro, aqueles que conseguem crescer de forma sustentável graças a vantagens estruturais de custo e a uma gestão disciplinada do capital. Para os observadores de mercado, os simples sinais de "compra ou venda" já não captam a complexidade do panorama atual da mineração. No futuro, a liderança na mineração não será definida apenas pelo poder de hash, mas sim pela resiliência da economia unitária e pela capacidade de gerir capital ao longo dos ciclos. Esta vaga de divergência, impulsionada pelas vendas, acabará por redefinir a segurança fundamental e a proposta de valor da rede Bitcoin.

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