Lembram-se talvez desta história de setembro de 1990? Marilyn vos Savant, mulher inscrita no Guinness World Records pelo QI mais alto da história, mexeu com a cabeça de muita gente e desencadeou uma tempestade que ainda ecoa hoje. Tudo por causa de uma questão sobre três portas e um carro.



Trata-se de um problema que mais tarde foi chamado de Monty Hall. O cenário é simples: tens três portas, atrás de uma há um carro, atrás das outras duas, cabras. Escolhes uma porta, o anfitrião abre uma das outras duas e mostra uma cabra. Agora, a questão é — permaneces com a tua escolha ou mudas para a outra porta fechada?

Marilyn vos Savant respondeu na sua coluna na revista Parade algo que parecia loucura: sempre mudares de porta. A razão? Mudar aumenta a probabilidade de ganhar de um terço para dois terços.

E foi aí que tudo começou. Ela recebeu mais de dez mil cartas. Quase mil de pessoas com doutoramento. Noventa por cento afirmavam que ela estava enganada. "Você interpretou mal a probabilidade" — escreviam. "Foi o maior erro que já vimos" — criticavam. Alguns até sugeriram que as mulheres simplesmente entendem pior de matemática.

Mas Marilyn vos Savant não se enganou. Nem um pouco.

A matemática aqui é brutal na sua simplicidade. Quando escolhes uma porta pela primeira vez, a chance de estar atrás do carro é de um terço, e de uma cabra, de dois terços. Isso não muda quando o anfitrião abre uma porta. Se inicialmente escolheste uma cabra — e estatisticamente é mais provável — o anfitrião sempre mostrará a outra cabra. Mudar garante a vitória. Se escolheste o carro, mudar te prejudica. Mas em dois dos três cenários, mudar vence.

Os cérebros humanos não gostam disso. Achamos que, uma vez abertas as portas, a chance é de cinquenta por cento. Ignoramos as probabilidades iniciais, como se elas resetssem. Isso é um erro de reset — pensamos que é um jogo novo, quando na verdade é continuação do antigo.

MIT realizou milhares de simulações. Universidades confirmaram. Programas de TV populares estudaram o problema e deram razão a Marilyn. Muitos cientistas que a criticaram depois admitiram o erro.

Curiosamente, Marilyn vos Savant é uma figura fascinante. Na infância, leu todos os vinte e quatro volumes da Encyclopædia Britannica e memorizou-os. Apesar do seu génio, cresceu em condições financeiras difíceis e não pôde fazer faculdade, pois precisava sustentar a família. Sua coluna Ask Marilyn tornou-se famosa por resolver enigmas complexos.

A história de Marilyn vos Savant e do problema de Monty Hall é uma lição de como a intuição pode nos enganar. É também uma história de coragem — de manter a sua resposta quando o mundo inteiro duvida. No final, descobriu-se que milhões estavam errados, e ela tinha razão. A sua experiência deixou uma marca duradoura na teoria da probabilidade e mostrou que, às vezes, a lógica deve vencer a opinião pública.
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