Tenho vivido há 45 anos no Irão e passei por mais guerras do que qualquer pessoa deveria experimentar. Mas desta vez, vendo tudo de longe, é diferente. É muito mais difícil.



Tudo começou em 1987. Tinha 8 anos quando ouvi a primeira explosão. Lembro-me exatamente daquele inverno: as janelas a vibrar, a minha mãe a gritar, o medo que te paralisa. Na escola, davam-nos porquinhos de plástico em forma de granada para recolher dinheiro para os soldados. Éramos crianças, percebes? Apenas crianças a escrever cartas para soldados que provavelmente nunca voltariam.

O meu tio Essi foi baleado nos primeiros dias. O meu primo Behrouz voltou da guerra destruído psicologicamente. Ainda carrega com isso. Mas o momento que nunca esquecerei foi no final de janeiro de 88. Estávamos no pátio da nossa antiga casa em Teerão quando um pedaço de míssil caiu a metros de nós. Um fragmento de metal vermelho que quase nos matou. A minha mãe, que sempre foi forte, naquele momento não conseguiu mais. Nós deixámos Teerão.

Passaram décadas. Pensei que o pior tinha ficado para trás.

Mas a 26 de outubro de 2024 acordei com explosões. Israel atacava o Irão novamente. Desde aquela manhã, durante 12 dias seguidos, a nossa casa tremia. O Governo cortou a internet. A minha parceira Mahsa, os gatos e eu habituámo-nos aos ruídos a partir do segundo dia. Dormíamos por turnos, colados ao telefone, a tentar manter-nos informados. Acreditávamos que aguentaríamos porque já tínhamos vivido isso antes. Mas não foi assim. Desta vez, foi diferente.

E depois veio o que aconteceu há 50 dias. A repressão brutal contra manifestantes nas ruas. Pessoas a serem assassinadas. Depois, neste sábado, mais ataques. Li que em Minab, ao sul, atacaram uma escola de raparigas junto a uma base militar. Dezena de menores assassinados. As mesmas granadas que nos davam como brinquedos quando éramos crianças agora caem sobre outras crianças.

Estou fora do Irão agora, na Catalunha. Mas acompanhar as notícias daqui é devastador. Não consigo deixar de pensar em toda aquela gente lá dentro, sem poder fazer nada. O povo iraniano não tem culpa. Primeiro foi massacrado pelo seu próprio governo há 50 dias. Agora, é bombardeado por mísseis estrangeiros. Que culpa tem ele?

Vivi todas as guerras no Irão. Mas esta, vista de fora, é a mais difícil que já experimentei. Talvez porque agora sei exatamente o que isso significa. E não posso fazer nada a respeito.
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